No último dia 20, Dia da Consciência Negra, a Câmara dos Deputados aprovou o substitutivo do projeto de Lei de Cotas, que tramitava no Senado há quase 10 anos. O projeto reserva, no mínimo, metade das vagas em universidades públicas federais para alunos que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Além disso, há ainda sub-cotas para beneficiar indígenas, negros e estudantes de baixa-renda. Desde sua origem, a lei gera divergências devido aos critérios que serão usados para seleção dos candidatos.
De acordo com o texto, as cotas serão aplicadas apenas em universidades vinculadas ao Ministério da Educação – e estas têm o prazo de quatro anos para se adaptar às regras. As cotas também serão válidas em escolas técnicas federais de ensino médio.
Em tese, metade das vagas destinadas às cotas deve ser distribuída de acordo com os critérios raciais e com a distribuição populacional do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A outra metade (25%) será aplicada de acordo com a renda familiar per capta do aluno, que deve ser inferior a um salário mínimo e meio.
Um dos grandes empecilhos na lei é em relação ao artigo 2, que elimina o vestibular para os cotistas. Em outras palavras, o estudante que se adeqüe a alguma cláusula do projeto estaria “garantido” em instituições públicas de ensino superior sem, ao menos, precisar fazer o vestibular.
A proposta vai contra as normas universitárias, uma vez cabe à cada instituição determinar o método de inserção do aluno, por meio de processos seletivos. Para o Ministro da Educação, Fernando Haddad, o artigo é inconstitucional – ele pedirá ao Senado a exclusão do artigo.
A prática de adoção de cotas universitárias gera muita controvérsia entre especialistas do meio acadêmico e cidadãos em geral. Por outro lado, o sistema de cotas raciais justifica-se pelas inúmeras constatações de baixo índice de negros e pardos com ensino superior – a mesma deficiência ocorre com o número de pessoas de baixa renda em universidades públicas federais.
O projeto, agora, será encaminhado ao Senado e, se for aprovado, entra em vigor. Algumas universidades brasileiras já aplicam um sistema de cotas – 51% das estaduais e 42% das federais, segundo último estudo feito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, UeRJ. Ainda assim, há muito o que ser feito para que a educação no Brasil não seja fruto (apenas) da facilidade de acesso à universidades – e, sim, de um ensino eficiente desde o início da vida escolar de cada cidadão.