Paulinha Online

30, set , 2008

Fetiche da velocidade

Filed under: Resenhando — by Ana Paula @ 5:54 pm
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Sylvia Moretzsohn é jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com mestrado em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e doutorado em Serviço Social pela UFRJ. Atualmente é professora de Jornalismo no Departamento de Comunicação Social da UFF.

Atua também como membro do conselho editorial da revista Discursos Sediciosos – crime, direito e sociedade, do Instituto Carioca de Criminologia. Sua atividade acadêmica é voltada principalmente para o estudo da relação entre jornalismo e informação em “tempo real” e dos vínculos entre jornalismo e cotidiano, cidadania e a “questão criminal”.

Fruto de sua dissertação de mestrado defendida na UFF, Jornalismo em “Tempo Real …” relata a fragilidade da notícia em meio à correria das redações que, atualmente, querem transmitir a informação em “primeira mão”. A autora analisa vários aspectos referentes a esse tema, uma vez que, nas redações atuais, a velocidade passa a ser mais importante que a notícia em si.

Uma das questões abordadas por Moretzsohn ao longo do livro é: “Como informar com rapidez sem desinformar?”. Para a autora, o ideal jornalístico de dizer a verdade contrasta com as condições reais de produção da notícia.

No início do primeiro capítulo, a autora discute a respeito da percepção humana de relação tempo x espaço, que varia conforme as culturas de cada povo. Em um apud de David Harvey, ela explica que a consolidação da moeda como meio de troca e o estabelecimento de novas regras sociais mudam a noção de tempo e espaço, afirmando, assim, uma nova ordem cultural e econômica: o capitalismo.

A velocidade é uma característica do capitalismo. Baseada nisso, Moretzsohn trata do contexto no qual se constitui a percepção de “aceleração do tempo” e a batalha para “chegar na frente” do concorrente.

A autora chama a atenção, a partir da pesquisa comparativa desenvolvida por Dominique Wolton e J.L. Lepigeon em 1979, que, após 20 anos, a informatização não representou – em jornalismo – a revolução esperada. Os procedimentos são os mesmos, o que muda é a concepção de tempo.

Sobre esse assunto, Moretzsohn cita: “[...] na era do “tempo real”, quando a informação deve ser instantânea para ter valor, o jornalismo mudou profundamente, a ponto de descaracterizar-se, embora os grandes conglomerados multimídia venham consolidando seu poder econômico e político”.

De acordo com Zygmunt Bauman, também citado no livro, o mercado investe na produção de eventos no campo de artes e espetáculos, buscando o retorno através do lucro e da valorização da imagem. Desta forma, a publicidade e a mídia passaram a ter papéis importantes no capitalismo, bem como a manipulação do gosto e da opinião.

Com o avanço tecnológico, torna-se mais fácil não apenas noticiar, como detalhar um assunto. De acordo com a autora, o uso de vídeos e sonoras permite situar melhor o leitor. No trecho: “a mídia disse: nós vamos mostrar a guerra inteira”, o caso era literal.

Sempre baseada em livros e estudos de outros autores, Moretzsohn utiliza linguagem técnica e explicativa, e retrata diversos fatores que moldam e cercam o ambiente jornalístico – capitalismo, noções de tempo e espaço e novas tecnologias são os assuntos do primeiro capítulo.

Jornalismo em “Tempo Real”… é uma crítica ao ambiente de imprensa atual, que associa qualidade de informação à velocidade, e expõe as implicações da “notícia como mercadoria”, como a perda de qualidade da notícia. Válido para estudantes de Comunicação, jornalistas formados e cidadãos já ambientados no conhecido capitalismo e imediatismo.

 

MORETZSOHN, Sylvia. Jornalismo em “Tempo Real” : O fetiche da velocidade. Editora Revan. 2002.

24, set , 2008

Repórteres, Audálio Dantas e a busca pela verdade

Filed under: Resenhando — by Ana Paula @ 1:27 pm
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O jornalista e escritor Audálio Dantas nasceu em 1929, no interior de Alagoas. Aos 25 anos iniciou sua carreira como repórter da Folha da Manhã, atual Folha de S. Paulo. Dantas atuou em importantes redações, como as das revistas O Cruzeiro, Quatro Rodas e Realidade, como redator e editor.

Dantas também foi Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, elegeu-se Deputado Federal por São Paulo em 1979, é membro da União Brasileira de Escritores e vice-presidente de honra do Conselho Paulista de Defesa da Paz. Possui vários prêmios de jornalismo e fundou, em 2003, a empresa Audálio Dantas Comunicação e Projetos Culturais.

Dantas destacou-se no sindicalismo e na política, durante o regime militar. Cobriu o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, no DOI-Codi de São Paulo, em 1975, época em que era Presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. A morte de Herzog trouxe de volta a questão da repressão política durante a ditadura militar, e é símbolo de uma época que nunca deve ser esquecida.

É a Vladimir Herzog que Audálio Dantas dedica o livro Repórteres, do qual também é organizador. O livro reúne textos de conceituados nomes do jornalismo, como Domingos Meirelles, Joel Silveira e José Hamilton Ribeiro, que relatam histórias dos bastidores de suas mais consagradas reportagens.

Repórteres é, certamente, original. Diferente dos demais livros feitos para jornalistas, une memórias de grandes nomes da imprensa e os métodos de investigação de seus autores, além da incansável busca pela informação. Ou melhor, pela boa informação.

O livro mostra claramente a distinção entre o repórter e os demais homens da comunicação. Cabe ao repórter buscar a verdade (ou, o mais próximo dela), mostrar aos cidadãos sua indignação e, mais que isso, deixá-los igualmente indignados. Bons repórteres contribuem com a história.

Audálio Dantas fala de suas variadas experiências em “A guerra no meio do caminho”, primeiro texto do livro. Dantas inicia a narrativa com um texto referindo-se ao fato de muitos repórteres encontrarem-se em uma situação inesperada, que exige coragem. O jornalista afirma que “[de um bom repórter] se exige, pelo menos, a coragem de espantar o medo nos momentos em que isso é preciso”.

Dantas descreve também os bastidores de sua matéria sobre a “Segunda Guerra de Canudos”, e como o cenário em que estava o impactava.

Um dos pontos fortes do livro é a narrativa de guerra, como as descritas por Zé Hamilton Ribeiro, no Vietnã, e as descritas por Joel Silveira durante a Segunda Guerra Mundial. Há também a “guerra do futebol” entre Guatemala e Honduras, explicada por Audálio Dantas: “[...] aquela guerra, que agora estava na iminência de se transformar num conflito sangrento, começara num estádio de futebol”. Na verdade, a batalha entre os países dava-se devido à imigração excessiva de salvadorenhos em Honduras – que tinha um território quase 6 vezes maior que El Salvador. Cada relato tem uma narrativa simples, emocionante e humana.

Repórteres marca devido às impactantes experiências de seus narradores, que nos remetem às reportagens descritas em uma época já distante. Remetem, também, a uma reflexão sobre o papel da imprensa – desde seus primórdios aos dias atuais.

Muitas das reportagens citadas no livro aconteceram no período militar, ou seja, época de censura prévia, Lei de Imprensa… Época na qual as matérias eram checadas e mutiladas pelo governo. Repórteres retrata a necessária busca pela liberdade de imprensa/liberdade de expressão. Os autores, cada qual com seu jeito, mostram as mazelas que vitimizam os cidadãos, como a violência, a miséria e a impunidade.

Essa liberdade de imprensa, tão almejada, é expressa pela linguagem e pelo compromisso com a verdade. Repórteres reúne profissionais que fazem jus ao conceito de jornalista e têm qualidades indispensáveis em um bom profissional da comunicação.

Repórteres não é voltado apenas aos estudantes de Jornalismo ou Comunicação mas, sim, às pessoas que crêem na busca pela verdade dos fatos. Recomendo.

DANTAS, Audálio. Repórteres. São Paulo: Editora Senac, 1998.

30, ago , 2008

O apanhador no Campo de Centeio

Filed under: Resenhando — by Ana Paula @ 6:12 pm
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O universo jovem nunca havia sido expressado de forma tão natural quanto em O Apanhador no Campo de Centeio, traduzido do original The Catcher in the Rye, escrito em 1951 por Jerome David Salinger. O livro conta, em narrativa em primeira pessoa, alguns dias na vida de Holden Caulfield, um jovem de 16 anos recém-expulso de uma luxuosa escola para rapazes nos Estados Unidos pós-guerra.

J.D. Salinger tinha 32 anos quando o livro foi publicado, e mesmo longe de ser adolescente, transmitiu através de Caulfield conceitos, idéias, medos e bobeiras dos jovens – expressando a complexidade característica dessa fase. Salinger sempre foi avesso à imprensa, mesmo após a vendagem de 15 milhões de exemplares de seu livro, o que o tornou uma celebridade mundial. Cortou qualquer contato com a mídia, não concede entrevistas, não se deixa fotografar e proibiu que seus livros fossem adaptados para o cinema – incluindo o primeiro, O Apanhador no Campo de Centeio.


J.D. Salinger, autor de The Catcher in The Rye

Holden Caulfield repassa sua visão própria de mundo enquanto volta para casa, em Nova Iorque. Suas reflexões sobre o passado, preocupações com o futuro e incertezas típicas dos adolescentes são transmitidas de forma inteligente e de maneira nunca vista antes, sintonizando-se profundamente com a realidade dos jovens. Caulfield é assumidamente covarde, não quer envelhecer porque considera os velhos farsantes e incomoda-se constantemente com a falsidade e o vazio das pessoas.

O Apanhador no Campo de Centeio teria inspirado Mark Chapman a cometer o ato que o tornou famoso – assassinar o ex-Beatle John Lennon, em 1980. Mesmo parecendo pessimista ou depressivo, há um vestígio de inocência e ingenuidade no protagonista. Foi a primeira vez na literatura americana e mundial que o universo dos jovens foi passado sem quaisquer pretensões – e suas características repercutem até hoje no comportamento da juventude do mundo todo. Com diálogos espontâneos e casuais, O Apanhador no Campo de Centeio é uma ótima leitura, deixando a sensação de que temos em nós muito de Holden Caulfield.

Super recomendo.

 SALINGER, J.D. O Apanhador no Campo de Centeio. Rio de Janeiro: Editora do Autor. 1999.

27, ago , 2008

A Hora da Estrela: a obra de Lispector e seu impacto

Filed under: Resenhando — by Ana Paula @ 12:22 pm
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 A Macabéa do cinema, interpretada por Marcélia Cartaxo.

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, na extinta União Soviética, em 1920. Mudou-se para o Brasil ainda na infância, residindo em Maceió e depois em Recife. No Rio de Janeiro, Lispector formou-se em Direito e foi casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos. Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, foi lançado em 1943, mas apenas na década de 60 é publicado seu primeiro livro de contos, Laços de Família. Pouco antes de morrer, em 1977, Clarice Lispector decide se afastar da inflexão intimista que caracteriza suas obras para desafiar a realidade. O resultado dessa mudança é A hora da estrela, uma de suas mais conhecidas obras.

Pela perspectiva do narrador Rodrigo S.M., Lispector narra a história da alagoana Macabéa, moça virgem e solitária, criada por uma tia que a leva para o Rio de Janeiro. Na cidade, Macabéa passa a trabalhar como datilógrafa e conhece Olímpico, um ambicioso metalúrgico que aspirava ser deputado. Macabéa, ou Maca, acumula em seu corpo franzino a herança do sertão, portanto, todas as formas de repressão cultural, fato que a deixa alheia de si e da sociedade. De acordo com o narrador, “Macabéa nunca se deu conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável”.

A trama dupla retrata a vida da nordestina e do narrador da história, que está condenado a uma doença terminal. Além do dia-a-dia de Macabéa, Rodrigo S.M. conta sua própria história, e tal narrativa encaixa-se paralelamente à história da personagem central da trama.

Ambas as personagens são inseridas em uma escrita imprevisível, que permite ao leitor uma reflexão sobre uma época de transição e incoerência – a estória se passa possivelmente entre as décadas de 60 e 70, após a morte da atriz Marylin Monroe, que ainda permanece como mito e permeia os sonhos das pessoas, entre elas Macabéa. Embora a história da nordestina seja dramática, toda a narrativa é permeada de muito humor e ironia.

A hora da estrela é uma obra marcada por duas características fundamentais da produção de Lispector: originalidade de estilo e profundidade psicológica por meio do enfoque de temas aparentemente comuns. Em A hora da estrela Clarice Lispector escreve sabendo que sua morte está próxima e bota um pouco de si nas personagens de Rodrigo S.M. e Macabéa. Ele, um escritor à espera da morte; ela, uma solitária que gosta de ouvir ao programa Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste, assim como Lispector.

A hora da estrela é uma produção rica em detalhes, e foi transportada para o cinema em 1985, em um filme recordista de premiações no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A obra de Lispector é considerada um clássico da literatura, e seu enredo é não-linear, repleto de flashbacks. Leitura indispensável não apenas para vestibulandos, A hora da estrela, bem como todas as obras de Lispector, permite ao leitor uma nova visão sobre a realidade em sua volta.

Em artigo publicado no jornal The New York Times, em 2005, a escritora foi descrita como o equivalente de Kafka na literatura latino-americana. A afirmação foi feita por Gregory Rabassa, tradutor para o inglês de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e da própria Clarice Lispector. A hora da estrela é uma obra que faz jus à crítica, uma vez que penetra a fundo na questão do preconceito sofrido pela nordestina Macabéa, fazendo desse um livro que deve ser entendido como uma análise minuciosa da alma de muitas pessoas ao redor do mundo.

[ p.s.: Havia escrito um parágrafo detalhado com o final da história, mas cortei para aqueles que quiserem ler e/ou assistir ao filme. Descobrir qual é a hora da estrela pode ser surpreendente. Fica a dica. ]

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Editora Rocco. 1998.

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